Como a repercussão de um vídeo evitou a impunidade de um crime brutal contra uma trans
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Dandara dos Santos, 42, foi morta após ser agredida
A divulgação de um vídeo que mostrava a transexual Dandara, 42, sendo brutalmente espancada e morta em Fortaleza se tornou peça decisiva para que o caso ganhasse os holofotes e saísse da triste lista de mortes de transgênero que passam batidas e sem culpados no Brasil.
Dandara foi morta no dia 15 de fevereiro, no bairro do Bom Jardim, periferia da capital cearense. O caso era apenas mais um em meio à rotina de violência de Fortaleza. Isso até o sábado passado (4), quando o vídeo com o espancamento da vítima veio à tona.
O caso então ganhou enorme repercussão. A revolta com imagens da brutalidade levou o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), a manifestar-se em redes sociais e cobrar elucidação do caso. O assunto também, rapidamente, se tornou um dos mais comentados virtualmente no Brasil, com o uso da hastag #PelaVidaDasPessoasTrans.
Nesta terça-feira (7), em resposta à repercussão, cinco pessoas --sendo três adolescentes-- foram detidas por suspeita de participação no caso. Uma está foragida, mas já foi identificada e é buscada.
A barbárie que gerou comoção
Nas imagens gravadas por um celular, é possível ver pelo menos três homens --aparentemente jovens-- chutando, dando pauladas, pedradas e chineladas na vítima, que já aparece no vídeo ensaguentada e bastante ferida. Ela ainda ouve uma série de ataques transfóbicos, diante de pessoas que assistem imóveis às agressões.
Mesmo com pedidos de misericórdia da vítima, os agressores levam Dandara em um carro de mão até um local no bairro e, já longe da câmera, a mataram com tiros de revólver.
À medida em que o vídeo foi se espalhando, ativistas, entidades ligadas aos direitos humanos, políticos e artistas se manifestaram e iniciaram a cobrança para que a polícia cearense efetuasse a prisão dos envolvidos.
Dandara tinha uma história parecida com tantas outras de transgêneros. Na adolescência se viu mulher e decidiu trocar de sexo. Passou a sofrer com o preconceito, e segundo um amigo, já havia sido vítima de agressão no bairro onde mora por conta do preconceito. "Ela era alegre, ajudava todo mundo, nunca dava um 'não' a ninguém", contou.
Mas será que a polícia agiria com tanta eficiência se esse vídeo não fosse levado a público? Para ativistas da área, é certo que não.
"Esse crime aconteceu dia 15 de fevereiro e só teve repercussão depois da divulgação do vídeo. Senão, era mais um crime que ia passar batido, não haveria uma resposta tão rápida", diz Sayonara Nogueira, coordenadora de comunicação da Rede Trans Brasil e integrante da ONG (Organização Não-Governamental) Transgender Europe.
Segundo a Rede Trans Brasil --que faz acompanhamento de casos de violência contra transgêneros no país--, 144 travestis ou trans foram mortos em 2016. Este ano, já foram 21 casos. "De domingo (5) para cá foram três mortes, e que não tiveram a repercussão", afirma Nogueira.
Segundo a Rede Trans Brasil, os assassinatos de transgêneros no Brasil têm como regra ficar impunes. "Normalmente, a polícia --e às vezes até a imprensa falha-- notifica enquanto gênero masculino, não respeitando nosso nome social. E a vítima acaba sendo enterrada como indigente", conta.
"A sociedade liga muito o transgênero a algo errado e acaba muitas vezes colocando a culpa na vítima. Quando sai alguma notícia de morte, se indaga logo se estava prostituindo, usando drogas. Isso só vai mudar na escola", conta Nogueira, que também é professora.
A transsexual e ativista do movimento LGBT cearense Helenna Vieira afirma que a polícia só agiu com transparência no caso após a pressão nas redes sociais. Ela conta que, antes do vídeo, não havia divulgação de como estavam as investigações. "Ao mesmo tempo, o vídeo ajudou a identificar os suspeitos", diz.
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